Revolução dos Cravos

"A Revolução dos Cravos: a população aguarda o sucesso dos acontecimentos", Alfredo Cunha, 25 de abril de 1974
Alfredo Cunha, um dos mais conceituados fotojornalistas português, foi colaborador em diversos jornais ao longo da sua carreira, mas destacou-se ao ser o fotógrafo da revolução de 25 de abril de 1974.
A imagem analisada é de Alfredo Cunha e foi captada a 25 de abril de 1974, no dia da Revolução dos Cravos. A 1933, a constituição portuguesa é alterada, e António de Oliveira Salazar com o restante governo cria o Estado, que se tornou num período de 41 anos da Ditadura. O regime foi marcado pela censura, falta de democracia, polícia secreta (PIDE), Guerras coloniais em África e pela falta de liberdade.
O movimento militar de 25 de abril foi liderado pelo MFA (Movimento das Forças Armadas), derrubou o regime ditatorial e levou ao início a democratização do país. A imagem de Alfredo Cunha capta esse momento.
Análise e Descrição Formal (John Berger):
Na fotografia, os soldados surgem em primeiro plano, ampliados e com as armas nítidas. No entanto, os civis ao fundo dominam a imagem visualmente, dando a ideia de presença em massa. Esta relação de escalas sugere uma hierarquia invertida, em que o protagonismo da cena pertence ao povo. A fotografia apresenta uma perspetiva frontal, direta, com profundidade criada pela sobreposição da população e militares. A linha de soldados cria uma barreira visual entre o espectador e a multidão, mas o facto de estarem perto da população demonstra que apoiam a mesma causa. Esta imagem é captada através de um ângulo normal, ao nível dos olhos, transmitindo ao espectador o sentimento de presença, como se fosse mais um na multidão, reforçando o efeito imersivo da fotografia.
A iluminação é boa, destacando o uso de luz, há ausência de sombras dramáticas ou de contraste forte, o que transmite um ambiente de normalidade, de clama, contrastando com o momento revolucionário, onde não existe violência. A composição centralizada divide a imagem em 2 camadas, em primeiro destaque, uma linha de soldados seguidos pela multidão ao fundo, que preenche quase todo o espaço restante, criando uma imagem visualmente carregada.
Alfredo Cunha utiliza o preto e branco de forma a provocar ao espectador diferentes sensações, apelando aos sentimentos de cada um. A imagem está bastante nítida, sendo possível perceber e ler as expressões de cada cidadão, estando o fundo um pouco desfocado para passar a sensação de multidão, estando algumas pessoas desfocadas. Também é possível perceber a multidão através da profundidade de campo utilizada.
Análise do significado
Nesta imagem é possível identificar diferentes signos que nos remetem para a revolução de abril. Apesar de não ter o maior símbolo desta revolução, o cravo, é através das expressões, das armas levantadas, do cigarro, e até das fardas que conseguimos compreender que esta revolução foi sem violência.
Nos soldados podemos observar as fardas, os capacetes e as armas que simbolizam o poder e autoridade, contudo, as armas voltadas para o céu, demonstra a tranquilidade da revolução e a ausência de violência. É possível ver um soldado a fumar, desconstruindo a atitude séria de um militar, demonstrando que é um humano como os outros. O soldado mais à direita na fotografia está de forma descontraída a segurar na arma a sorrir, sugerindo a não-violência. No que toca aos civis, através das expressões de cada um podemos ver que existe algum receio, ou expectativa na forma como vai culminar esta revolução, vemos a alegria e a esperança no olhar e que todos ali presentes acreditam que "O Povo é quem mais ordena" e que "O Povo Unido, Jamais Será Vencido".
A fotografia transmite uma sensação de esperança. Apesar da presença das armas, não há violência. O tom geral é pacífico: uma revolução onde podia ter sido usada a violência, mas tal não aconteceu.
Esta imagem fala-nos da união entre os cidadãos e os militares de forma a colocarem fim à ditadura vivida. O enquadramento faz-nos sentir que estamos presentes, entre a multidão, a assistir à revolução a acontecer.
A fotografia representa o renascimento democrático de Portugal, um ponto de viragem para o país Ibérico. O papel do exército como impulsionador é evidente. A imagem de Cunha mostra a esperança organizada.
Hoje, a imagem permanece como símbolo do pacifismo revolucionário. Num mundo marcado por novas formas de autoritarismo, ela lembra-nos que a mudança pode ser feita sem violência. A Revolução dos Cravos é uma exceção histórica — e esta fotografia é o seu retrato mais expressivo.
Joana Leite, 2025